QUANDO O FILHO DO HOMEM VIER

Autor: Rev. Cássio Campos Neves - pastor titular da 4ª Igreja.

Há acontecimentos para os quais nos preparamos durante muito tempo. Alguns são aguardados com alegria; outros despertam preocupação. Entretanto, nenhum deles se compara ao dia em que Jesus Cristo voltará em glória.
Nos capítulos 24 e 25 de Mateus, Jesus prepara seus discípulos para esse acontecimento. Ele os chama à perseverança, à vigilância e à fidelidade. Por meio de parábolas, ensina que sua ausência não significa que seus servos estejam livres de responsabilidades. O Senhor voltará, e sua chegada revelará a verdadeira condição daqueles que o aguardam.
Mas o que acontecerá quando o próprio Filho do Homem vier? O que acontecerá quando o tão aguardado dia chegar?
Em Mateus 25.31-46, Jesus deixa a linguagem das parábolas e descreve diretamente sua vinda gloriosa e o julgamento final. Sua majestade será manifesta, a verdadeira condição de cada pessoa será revelada e seu destino eterno será estabelecido.
O REI QUE VIRÁ EM GLÓRIA
Jesus anuncia: “Quando vier o Filho do Homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então, se assentará no trono da sua glória” (Mt 25.31).
A expressão “Filho do Homem” remete à visão de Daniel 7.13-14, na qual alguém semelhante a um filho de homem recebe domínio, glória e um reino que jamais será destruído. Jesus se identifica com essa figura gloriosa. Aquele que foi rejeitado, perseguido e crucificado retornará revestido de majestade.
Isso não significa que Jesus somente se tornará Rei naquele dia. Após sua ressurreição, ele declarou possuir toda a autoridade no céu e na terra (Mt 28.18). Sua segunda vinda será a manifestação pública e gloriosa dessa autoridade.
Todas as nações serão reunidas diante dele. Como um pastor separa ovelhas e cabritos, Cristo colocará uns à sua direita e outros à sua esquerda (Mt 25.32-33).
Essa separação acontece antes da apresentação das ações e omissões dos julgados. O julgamento final não será uma investigação pela qual Jesus descobrirá quem lhe pertence. Ele já conhece suas ovelhas (Jo 10.14). Naquele dia, tornará pública uma distinção que conhece perfeitamente.
OS QUE VERDADEIRAMENTE PERTENCEM AO REI
Aos que estiverem à sua direita, o Rei dirá: “Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34). Os justos são chamados de benditos do Pai, recebem o Reino como herança e descobrem que essa herança estava preparada desde a fundação do mundo.
O verbo grego klēronomēsate (κληρονομήσατε) significa herdar. O Reino não é apresentado como conquista humana, mas como herança preparada por Deus. Essa verdade está em harmonia com Efésios 2.8-10: somos salvos pela graça, mediante a fé, não por obras, mas criados em Cristo para boas obras.
Entretanto, Jesus também apresenta as ações daqueles que recebem essa herança. Eles o alimentaram quando esteve faminto, acolheram-no quando era estrangeiro, vestiram-no quando necessitou de roupas, cuidaram dele quando esteve enfermo e visitaram-no quando esteve preso. Surpresos, perguntam quando haviam servido ao Senhor. Jesus responde: “Sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25.40).
Quem são esses pequeninos irmãos? Essa expressão recebe diferentes interpretações. Alguns a relacionam a todas as pessoas necessitadas; outros, especificamente aos discípulos de Jesus. Ao examinar essas possibilidades, Carson considera mais adequada a identificação com os discípulos de Cristo, sem restringi-los aos apóstolos ou missionários.¹ O argumento encontra apoio no próprio Evangelho de Mateus: Jesus reconhece como seus irmãos aqueles que fazem a vontade do Pai (Mt 12.48-50) e ensina que receber seus discípulos é recebê-lo (Mt 10.40-42).
Assim, Cristo se identifica profundamente com aqueles que lhe pertencem. O cuidado dispensado aos seus discípulos é reconhecido como serviço prestado ao próprio Senhor.
Mas isso significa que as boas obras conquistam nossa salvação? Não. Carson explica que o fundamento da admissão no Reino, nessa passagem, é mais indicativo do que causativo.² As obras tornam manifesta a realidade da relação com Cristo, sem constituírem mérito salvador. Hernandes Dias Lopes expressa a mesma distinção teológica ao afirmar: “Somos justificados não pelas obras, mas para as boas obras”.³ Portanto, no julgamento final, nossas obras não comprarão nossa entrada no Reino, mas revelarão se nossa fé em Cristo foi verdadeira.
Essa verdade possui consequências para nossa vida comunitária. O enfermo que precisa de uma visita, a família que enfrenta dificuldades e o irmão solitário que necessita de acolhimento não devem passar despercebidos. Servimos a Cristo quando, movidos pela fé, demonstramos amor àqueles com quem ele se identifica.
OS QUE NÃO PERTENCEM AO REI
Aos que estiverem à esquerda, o Rei anunciará uma sentença completamente diferente: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25.41). O contraste é impressionante. Aos justos, ele diz: “vinde”; aos injustos: “apartai-vos de mim”. Uns recebem a herança do Reino; outros são destinados ao fogo eterno.
Jesus apresenta as omissões dos condenados. Eles não o alimentaram, não o acolheram, não o vestiram, não cuidaram dele e não o visitaram quando necessitavam de misericórdia.
O Senhor não menciona apenas crimes extraordinários. Ele aponta para o bem que deixaram de fazer. Essas omissões revelam algo mais profundo: a ausência de uma verdadeira relação com Cristo. Ao negligenciarem os pequeninos irmãos do Rei, demonstraram sua indiferença ao próprio Rei.
Carson observa que a surpresa dos julgados não está propriamente no destino anunciado, mas na identificação que o Rei estabelece entre si mesmo e seus irmãos.⁴ A maneira como trataram esses irmãos tornou manifesta sua relação com Cristo.
Isso nos conduz a um exame necessário. É possível conhecer a linguagem da religião e professar fidelidade a Jesus sem demonstrar os frutos de uma fé verdadeira. O próprio Senhor advertiu que nem todo aquele que lhe diz “Senhor, Senhor” entrará no Reino dos céus (Mt 7.21).
A verdadeira comunhão com Cristo não se limita às palavras. Ela produz frutos de amor, misericórdia e obediência.
DOIS DESTINOS ETERNOS
Jesus encerra seu discurso com uma declaração solene: “E irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna” (Mt 25.46). A mesma palavra grega, aiōnios (αἰώνιος), qualifica tanto o castigo quanto a vida. No contexto, Jesus apresenta dois destinos escatológicos definitivos.
Ao comentar essa passagem, Hernandes D. Lopes enfatiza a correspondência entre a duração da vida eterna e a do castigo eterno.⁵ A compreensão reformada do castigo como punição consciente e sem fim também encontra fundamento no conjunto do ensino bíblico sobre o julgamento.
Para aqueles que pertencem a Cristo, sua volta representa a consumação da esperança. Para aqueles que permanecem afastados dele, representa a manifestação definitiva do justo julgamento de Deus.
O mesmo acontecimento que trará acolhimento aos justos resultará em condenação para os injustos.
A QUEM PERTENCEMOS?
A grande questão sobre a volta de Jesus não é apenas quando ele virá, mas se verdadeiramente pertencemos a ele.
Não serão nossas obras que nos salvarão. Somente a graça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo, pode nos conceder a vida eterna. Entretanto, essa fé não permanece sem frutos.
Por isso, a esperança da volta de Cristo deve transformar nossa maneira de viver hoje. Somos chamados a confiar nele, amar nossos irmãos e demonstrar, por meio de uma vida transformada, que pertencemos ao Rei.
Hoje, Cristo chama pecadores ao arrependimento e à fé. Quando o Filho do Homem vier, não haverá mais tempo para decidir a quem pertencemos.
Naquele dia, o Rei revelará aquilo que somos diante dele.
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NOTAS E REFERÊNCIAS
¹ CARSON, D. A. O comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2011, p. 603-604.
² CARSON, 2011, p. 603.
³ LOPES, Hernandes Dias. Mateus: Jesus, o Rei dos reis. São Paulo: Hagnos, 2019, p. 733.
⁴ CARSON, 2011, p. 604-605.
⁵ LOPES, 2019, p. 733-734.



daora
Glória a Deus por sua infinita Graça! Seu plano é perfeito! Maranata!