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ENQUANTO O SENHOR NÃO VOLTA

Foto do escritor: Quarta Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte
Quarta Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte
25 de out.
8 min de leitura

Autor: Rev. Cássio Campos Neves - pastor titular da 4ª Igreja.


Esperar por alguém nem sempre significa permanecer parado. Quando sabemos que uma pessoa retornará e nos confiou determinadas responsabilidades, nossa espera envolve compromisso. Não basta reconhecer que ela voltará; é necessário considerar o que devemos fazer enquanto está ausente.

Essa é uma das questões centrais da parábola dos talentos, contada por Jesus em Mateus 25.14-30. Entretanto, seu ensinamento vai além de uma convocação ao trabalho. Jesus nos coloca diante de uma pergunta muito mais profunda: nossa maneira de viver corresponde à fé que professamos?

A parábola faz parte do discurso escatológico de Jesus, registrado em Mateus 24–25. Nesse contexto, o Senhor prepara seus discípulos para o período que antecederia sua segunda vinda. Ele ensina sobre a necessidade de vigilância, perseverança e fidelidade enquanto aguardam seu retorno.

Essa sequência é fundamental para compreendermos que a parábola dos talentos não trata, primeiramente, de como alcançar sucesso na vida, desenvolver habilidades pessoais ou multiplicar recursos financeiros. Jesus está ensinando como seus discípulos devem viver no período entre sua partida e seu retorno.

Na parábola das dez virgens (Mt 25.1-13), Jesus enfatiza a importância de estarmos preparados para sua chegada. Na parábola dos talentos, demonstra que essa preparação não consiste em uma espera passiva. Hernandes Dias Lopes sintetiza a relação entre essas duas parábolas afirmando: “As virgens esperam; os servos trabalham”.¹

Enquanto o Senhor não volta, seus servos têm responsabilidades a cumprir. Mas existe um aspecto ainda mais importante. Ao final da história, descobrimos que a diferença entre os servos não está simplesmente na quantidade de resultados que conseguiram produzir. Suas atitudes revelam algo sobre o relacionamento que mantinham com seu senhor.

Essa distinção é fundamental para compreendermos o ensinamento de Jesus.


TUDO COMEÇA COM AQUILO QUE RECEBEMOS

A história começa com um homem que, antes de viajar, chama seus servos e lhes confia seus bens. A um entrega cinco talentos, a outro dois e ao terceiro um, conforme a capacidade de cada um.

Na época de Jesus, o talento era uma unidade de peso utilizada para expressar valores monetários. Não devemos, portanto, confundi-lo diretamente com nossas habilidades pessoais. O próprio texto distingue os talentos recebidos da capacidade dos servos (25.15). Essa distinção é importante também para evitar uma interpretação excessivamente restrita da parábola. D. A. Carson adverte que tentativas de identificar os talentos com categorias específicas de dons acabam produzindo “um estreitamento da parábola”.² Seu ensinamento possui uma aplicação mais abrangente à responsabilidade dos discípulos diante daquilo que Deus lhes confia.

O detalhe mais importante, entretanto, não está nas quantidades distribuídas, mas na propriedade dos recursos. A parábola afirma que o senhor lhes confiou os seus bens (v. 14). Os recursos continuavam pertencendo ao senhor. Os servos receberam a responsabilidade de administrá-los durante sua ausência.

Essa é a primeira verdade para a qual aponta a parábola: Cristo não nos chamou simplesmente para aguardar sua volta. Ele nos confiou responsabilidades que devemos reconhecer e assumir enquanto esperamos.

Observe também que as quantidades eram diferentes. Nem todos receberam os mesmos recursos, mas todos receberam algo pelo qual deveriam responder. Isso nos ajuda a compreender que a fidelidade não pode ser medida pela comparação entre pessoas. O Senhor não exige que todos tenham as mesmas oportunidades ou realizem exatamente as mesmas tarefas. Cada servo deve responder àquilo que lhe foi confiado.

Essa verdade possui importantes consequências para nossa vida cristã. É possível passar muito tempo observando aquilo que outras pessoas fazem, admirando suas oportunidades ou lamentando nossas limitações, enquanto negligenciamos as responsabilidades que estão diante de nós. Mas a pergunta fundamental não é quanto recebemos em comparação com os outros. É se reconhecemos aquilo que Cristo nos confiou.

A parábola não apresenta uma lista específica dessas responsabilidades. Entretanto, o conjunto das Escrituras nos ensina que somos chamados a obedecer à Palavra de Deus, amar nossos irmãos, servir à Igreja, testemunhar do evangelho e participar da missão de fazer discípulos.

Assim, a fidelidade começa com o reconhecimento de que nossa vida pertence ao Senhor e deve ser vivida em obediência à sua vontade.


A FIDELIDADE NÃO PODE PERMANECER APENAS NAS PALAVRAS

Depois de distribuir os talentos, o senhor parte. A narrativa passa, então, a descrever a maneira como cada servo respondeu à responsabilidade recebida. O primeiro, que havia recebido cinco talentos, começa imediatamente a negociar e consegue outros cinco. O segundo faz o mesmo e também duplica o valor recebido. O terceiro, entretanto, toma uma decisão diferente: cava um buraco e esconde o dinheiro de seu senhor.

À primeira vista, poderíamos pensar que sua atitude foi prudente. Afinal, ele não desperdiçou os recursos, não perdeu o dinheiro e não se apropriou daquilo que não lhe pertencia.

Mas esse é precisamente o problema: embora tenha preservado o talento, deixou de cumprir a responsabilidade que lhe fora confiada. Sua infidelidade não se manifestou pelo desperdício, mas pela negligência.

R. V. G. Tasker identifica o problema central do terceiro servo como sua “inatividade medrosa e sem fé”.³ Essa observação nos ajuda a perceber que o problema não era simplesmente sua incapacidade de produzir resultados, mas sua recusa em agir fielmente diante da responsabilidade recebida.

Essa distinção esclarece um aspecto importante da vida cristã. Não basta reconhecer a autoridade de Cristo ou admitir que temos responsabilidades diante dele. É necessário responder a essa autoridade com obediência.

Podemos conhecer os ensinamentos bíblicos, participar regularmente das atividades da Igreja e afirmar corretamente que Jesus é nosso Senhor. Entretanto, nenhuma dessas coisas, isoladamente, demonstra que estamos vivendo em verdadeira submissão a ele.

A fé cristã não se limita ao reconhecimento intelectual de determinadas verdades. Ela alcança nossa maneira de viver. Isso significa que a espera pela volta de Cristo não pode ser passiva. Somos chamados a servir, amar, obedecer e testemunhar, mesmo quando nossas circunstâncias parecem comuns e nossas oportunidades são limitadas.

Entretanto, precisamos tomar cuidado para não confundir fidelidade com sucesso. A parábola não deve ser transformada em uma promessa de prosperidade financeira ou em um incentivo à busca de resultados extraordinários. Sua ênfase está na diferença entre a disposição responsável dos dois primeiros servos e a negligência do terceiro.

A questão não é simplesmente quanto conseguimos produzir, mas se estamos comprometidos com a vontade daquele a quem pertencemos. E isso nos conduz ao momento decisivo da história.


QUANDO O SENHOR VOLTAR, A FIDELIDADE SERÁ REVELADA

Jesus afirma que, depois de muito tempo, o senhor retorna e chama seus servos para prestar contas. A demora não significava que ele havia abandonado seus bens ou dispensado os servos de suas responsabilidades. O dia da avaliação finalmente chegou.

Os dois primeiros apresentam os resultados de seu trabalho e recebem exatamente o mesmo elogio: “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor” (vv. 21,23). Embora tenham recebido quantidades diferentes, ambos são igualmente aprovados. O senhor não os compara entre si, mas reconhece a fidelidade de cada um. A aprovação não está fundamentada na igualdade dos resultados, mas na maneira como responderam à responsabilidade recebida.

A situação muda completamente quando o terceiro servo se apresenta. Ele devolve o talento recebido e procura justificar sua conduta afirmando que considerava seu senhor um homem severo. Por isso, diz que teve medo e decidiu esconder o dinheiro.

É importante perceber que essa descrição do senhor pertence à justificativa apresentada pelo próprio servo. Não devemos aceitá-la automaticamente como uma representação verdadeira do caráter do senhor da parábola, muito menos do caráter de Deus. A resposta recebida demonstra a incoerência de sua explicação. Mesmo que realmente acreditasse naquela descrição, deveria ter agido de maneira diferente.

Mas existe algo ainda mais significativo. O terceiro servo nunca negou que o talento pertencia ao senhor. Pelo contrário, ao devolver o dinheiro, declarou: “Aqui tens o que é teu” (v. 25).

Ele reconhecia a propriedade dos recursos e a autoridade daquele que os havia confiado. Entretanto, sua maneira de agir demonstrava que não estava verdadeiramente comprometido com os interesses de seu senhor. Por isso, recebe uma resposta completamente diferente daquela dirigida aos dois primeiros: “Servo mau e negligente” (v. 26).

Aqui encontramos o contraste fundamental da parábola. Os primeiros são chamados de bons e fiéis; o terceiro, de mau e negligente. A sentença final é ainda mais severa: “E o servo inútil, lançai-o para fora, nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes” (v. 30). Essa linguagem aponta para o julgamento final. Jesus não está ensinando apenas que alguns discípulos receberão recompensas maiores do que outros. Ele está advertindo que nem todos os que reconhecem exteriormente sua autoridade são verdadeiramente seus discípulos.

D. A. Carson explica que a condenação do terceiro servo envolve não somente a perda daquilo que lhe fora confiado, mas também sua rejeição e exclusão da presença do senhor.⁴ A gravidade dessa sentença demonstra que a parábola trata de algo muito mais profundo do que a distribuição de recompensas entre os salvos.

O terceiro servo ocupava a posição de servo e reconhecia a autoridade de seu senhor. Entretanto, sua negligência revelou que sua submissão era apenas exterior. Essa advertência deve ser considerada seriamente por todos os que professam a fé cristã. Jesus já havia declarado no Sermão do Monte: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7.21). Portanto, reconhecer Jesus verbalmente como Senhor não significa, necessariamente, viver como seu verdadeiro discípulo.

Nossa maneira de viver precisa corresponder à fé que professamos. Isso não significa, entretanto, que conquistamos a salvação por nossas realizações ou que um verdadeiro discípulo jamais falha. As Escrituras ensinam que somos salvos pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo, e não pelas obras (Ef 2.8-9). Mas também ensinam que fomos criados em Cristo Jesus para boas obras (Ef 2.10).

Essa distinção encontra expressão na Confissão de Fé de Westminster, que ensina que as boas obras são “o fruto e as evidências de uma fé viva e verdadeira”.⁵ A obediência, portanto, não é o fundamento da nossa salvação, mas uma evidência da autenticidade da fé. É a graça de Deus que nos salva e também nos transforma, conduzindo-nos a uma vida de fidelidade.

A diferença entre os servos, portanto, não deve ser interpretada como uma oposição entre aqueles que alcançaram a salvação por suas realizações e aquele que não conseguiu produzir o suficiente para ser salvo. O contraste é entre uma fidelidade que se manifesta concretamente e uma submissão meramente exterior, incapaz de produzir a obediência que acompanha a fé verdadeira.


A QUEM SERVIMOS ENQUANTO ESPERAMOS?

A parábola dos talentos nos ensina que aguardar a volta de Cristo significa viver conscientes de que pertencemos a ele. Recebemos responsabilidades, somos chamados a cumpri-las e sabemos que um dia prestaremos contas ao Senhor.

Mas o ensinamento de Jesus não pretende apenas nos tornar pessoas mais ocupadas. Ele nos convida a examinar a realidade de nossa fé. Podemos reconhecer a autoridade de Cristo e, ainda assim, viver de maneira indiferente à sua vontade. Podemos afirmar que aguardamos sua volta, mas organizar nossa existência como se nunca fôssemos encontrá-lo.

Por isso, a pergunta mais importante não é simplesmente o que estamos fazendo enquanto esperamos, mas a quem estamos servindo. A verdadeira fidelidade não se limita às palavras que pronunciamos. Ela se manifesta na maneira como vivemos.

Nossa esperança, entretanto, não repousa na perfeição de nossa obediência, mas na fidelidade de Jesus Cristo, que entregou sua vida por nós e, por sua graça, nos sustenta enquanto aguardamos seu retorno.

É essa graça que nos permite servir com gratidão, perseverar diante das dificuldades e reconhecer que tudo o que somos e possuímos pertence ao Senhor. Enquanto ele não volta, vivamos como servos que desejam honrá-lo.


E que nossa esperança não seja apenas contemplar seu retorno, mas também ouvir de seus lábios: “Muito bem, servo bom e fiel [...] entra no gozo do teu senhor.”

___________________

NOTAS E REFERÊNCIAS

¹ LOPES, Hernandes. Mateus: Jesus, O rei dos reis. São Paulo: Hagnos, 2019, p. 727.

² CARSON, D. A. O comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2010, p. 598.

³ TASKER, R. V. G. O evangelho segundo Mateus: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1980, p. 187.

⁴ CARSON, 2010, p. 599.

⁵ ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER. A confissão de fé de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, XVI.II.

2 comentários

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João Pedro
João Pedro
29 de out.
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Legal.

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fernando_fft
27 de out.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Deus confiou a nós seu bem mais precioso … sua igreja! As vezes por cansaço tb queremos nos proteger da ingratidão e da falta de reconhecimento! As vezes tb nos desgastamos em atividades que não foram pedidas a nós por Deus, por isso precisamos de sintonia com Deus para não desperdiçarmos recursos! E por fim, podemos dar desculpas para não servir, mas são inúteis perante Deus que sonda os corações! Deus nos abençoe

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