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POR QUE A IGREJA SE REÚNE PARA CULTUAR?

Foto do escritor: Quarta Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte
Quarta Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte
22 de out.
6 min de leitura

Atualizado: 23 de out.

Autor: Rev. Cássio Campos Neves - pastor titular da 4ª Igreja.



Por que precisamos nos reunir para cultuar a Deus, se podemos desfrutar de sua presença em todos os momentos da vida? Afinal, as Escrituras ensinam que, por meio de Jesus Cristo, temos livre acesso ao Pai no Espírito Santo. Nossa comunhão com Deus não começa quando entramos no templo, nem termina quando a reunião é encerrada. Entretanto, o mesmo Senhor que nos reconciliou consigo também ordena que não deixemos de congregar. Essa aparente tensão nos conduz a uma questão fundamental: se o culto não é o caminho pelo qual alcançamos a presença de Deus, qual é, então, sua natureza e finalidade?


1 CRISTO É O CAMINHO DE ACESSO À PRESENÇA DE DEUS

A resposta começa com uma verdade fundamental do evangelho: o acesso à presença de Deus não é uma conquista humana, mas um benefício da obra redentora de Jesus Cristo. O autor de Hebreus declara que temos intrepidez para entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou (Hb 10.19-20). O caminho até Deus não é aberto por nossas orações, cânticos ou cerimônias religiosas, mas pelo sacrifício suficiente e definitivo de Cristo.

Na antiga aliança, o acesso ao Santo dos Santos era restrito e mediado pelo sacerdócio levítico. Entretanto, Jesus Cristo, nosso grande sumo sacerdote, ofereceu a si mesmo como sacrifício perfeito e abriu definitivamente o caminho à presença do Pai. Por isso, o autor de Hebreus nos exorta: “aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé” (Hb 10.22)¹.

Paulo apresenta essa mesma verdade em termos explicitamente trinitários: “porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito” (Ef 2.18). O acesso é ao Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo. Não depende de um lugar sagrado nem de uma reunião litúrgica, mas da mediação permanente de Jesus Cristo².

Portanto, não nos reunimos para abrir um caminho até Deus. Reunimo-nos porque Cristo já abriu esse caminho. A comunhão com Deus é uma realidade permanente da vida daqueles que foram reconciliados com ele. O culto público não estabelece essa comunhão, já assegurada pela mediação de Cristo, mas constitui uma expressão comunitária e especialmente ordenada dessa comunhão, na qual o Senhor continua a fortalecer seu povo por meio da graça que lhe ministra.


2 DEUS CONVOCA O POVO QUE JÁ LHE PERTENCE

Se já temos acesso a Deus por meio de Cristo, por que precisamos nos reunir? A resposta encontra-se na própria continuidade do argumento de Hebreus.

Depois de anunciar o livre acesso à presença de Deus, o autor exorta os crentes a guardar firme a confissão da esperança e a considerar uns aos outros, estimulando-se ao amor e às boas obras. Em seguida, acrescenta: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns” (Hb 10.25).

Observe a relação entre essas afirmações. O acesso concedido por Cristo não torna desnecessária a assembleia da Igreja. Pelo contrário, fundamenta uma vida de comunhão na qual os crentes perseveram juntos na fé e se encorajam mutuamente enquanto aguardam o Dia do Senhor³.

A Igreja, portanto, não é simplesmente uma reunião de indivíduos que decidiram compartilhar experiências religiosas. Ela é o povo que Deus chamou das trevas para sua maravilhosa luz (1Pe 2.9-10). É precisamente esse povo, constituído pela graça e unido a Cristo, que Deus convoca à sua presença para adorá-lo em comunhão. A assembleia cristã é, portanto, uma resposta obediente à convocação daquele que, por sua graça, já nos recebeu como seu povo. A identidade da Igreja nasce da graça divina e de sua união com Cristo, não da realização de uma cerimônia religiosa.


A Igreja não se torna povo de Deus porque se reúne;
reúne-se porque já é povo de Deus.

Fazer essa distinção possui consequências importantes. Primeiro, cada cristão desfruta pessoalmente da comunhão com Deus, e sua adoração não está restrita a um espaço específico ou aos momentos em que a Igreja se reune publicamente, conforme ensina a CFW XXI.6⁴. Essa realidade, contudo, não diminui a necessidade nem a singularidade do culto público, que não pode ser reduzido à soma das experiências individuais dos crentes.

Segundo, quando a Igreja se reúne, é a comunidade da aliança que comparece diante de seu Senhor. No culto, cada crente participa com fé, arrependimento e gratidão, mas o faz como membro de uma comunidade que, reunida, adora ao Senhor como um corpo.

Terceiro, isto significa que a Igreja não deixa de existir quando está dispersa. Ela continua sendo corpo de Cristo durante toda a semana, vivendo na presença de Deus e cumprindo sua vocação no mundo.

Assim, na assembleia pública, essa mesma comunidade adoradora que é povo de Deus exerce corporativamente a adoração que seu Senhor lhe ordenou.


3 A IGREJA SE REÚNE PARA ADORAR E SER EDIFICADA

A finalidade do culto não pode ser compreendida apenas a partir daquilo que os participantes desejam experimentar. A questão fundamental é o que Deus ordenou que sua Igreja fizesse quando estivesse reunida.

Em primeiro lugar, a Igreja se reúne para adorar ao Senhor. Como povo redimido, ela responde à graça divina com louvor, oração, confissão, gratidão e consagração. É importante, contudo, destacar que sua adoração não procura conquistar o favor de Deus, mas expressa o reconhecimento de que tudo recebeu gratuitamente em Jesus Cristo.

Consequentemente, o culto não consiste somente naquilo que a Igreja oferece a Deus. Nele, o Senhor também ministra sua graça ao povo que lhe pertence. Por meio da Palavra e dos sacramentos, mediante a ação do Espírito Santo, Deus instrui, confronta, consola e fortalece sua Igreja.

Michael Horton enfatiza essa iniciativa divina ao compreender o culto como uma expressão da relação pactual entre Deus e seu povo. Sua dinâmica é dialógica: Deus anuncia sua graça, e a Igreja responde com fé e arrependimento. O próprio Horton sintetiza: “Deus fala e nós respondemos”⁵. É preciso entender, no entanto, que essa resposta não constitui uma contribuição humana independente da graça. É Deus quem nos capacita a responder àquilo que ele mesmo anuncia.

Essa dinâmica de iniciativa divina e resposta comunitária também nos ajuda a compreender a finalidade edificadora do culto. Em 1 Coríntios 14.26, Paulo exorta: “Seja tudo feito para edificação”. A orientação paulina evidencia que a reunião da Igreja não deve ser organizada em torno da satisfação espiritual individual, mas deve promover a edificação de todo o corpo, no contexto da adoração devida a Deus. Peterson observa que, na assembleia cristã, adoração e edificação não são finalidades concorrentes, pois “o propósito das reuniões cristãs é a edificação ou construção do corpo de Cristo”⁶. O ministério mútuo entre os fiéis constitui uma expressão da obediência que glorifica a Deus.

Por isso, a Igreja não é simplesmente espectadora de uma cerimônia religiosa. Ela participa ativamente da adoração comunitária, ouvindo a Palavra, confessando sua fé, orando, cantando e recebendo os sinais da graça. Deus ministra ao seu povo, e seu povo responde à sua iniciativa graciosa.

Essa relação revela uma característica fundamental do culto cristão: sua natureza pactual. Deus reúne aqueles que já lhe pertencem, reafirma diante deles suas promessas e os fortalece para continuarem vivendo como seu povo. A assembleia não estabelece uma nova aliança nem repete a obra redentora de Cristo. Ela vive dos benefícios da aliança que o Senhor Jesus estabeleceu pelo seu sangue.


CONCLUSÃO: O PRIVILÉGIO DE CULTUAR COMO POVO REDIMIDO

O culto público é, portanto, muito mais do que uma oportunidade de buscar uma experiência religiosa pessoal. É um privilégio concedido à comunidade que Deus redimiu e reconciliou consigo por meio de Jesus Cristo.

Não nos reunimos porque Deus esteja distante durante a semana, nem porque precisemos alcançar novamente sua presença. Reunimo-nos porque pertencemos a ele e porque ele nos chama a adorá-lo como seu povo. Na assembleia, a Igreja glorifica seu Senhor, recebe a ministração de sua graça e é fortalecida para perseverar na fé, no amor e na esperança.

Assim, a pergunta que deve orientar nossa compreensão do culto não é simplesmente se cada pessoa experimentou algo marcante, mas se a Igreja adorou fielmente ao Senhor e foi edificada conforme sua Palavra.


Cristo é o caminho que nos conduz ao Pai. O culto é a adoração pública do povo que, por esse caminho, já foi recebido na presença de Deus.


________________________________

NOTAS E REFERÊNCIAS:

¹ É importante distinguir o fundamento do nosso acesso a Deus, que é a obra definitiva de Cristo, do exercício desse acesso, que consiste na aproximação contínua dos crentes, individual e comunitariamente, mediante a fé. Assim, o culto não abre o caminho, mas é uma ocasião privilegiada em que a Igreja exerce comunitariamente esse acesso.

² A Confissão de Fé de Westminster expressa esse princípio ao afirmar que a adoração religiosa deve ser prestada exclusivamente a Deus e, depois da queda, somente mediante Cristo, o único Mediador - ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER. A confissão de fé de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, XXI.II.

³ PETERSON, David. Teologia bíblica da adoração: cultuando a Deus como ele orienta e deseja. São Paulo: Vida Nova, Edição Kindle, 2019, posição 5182. David Peterson, ao examinar Hebreus 10.24-25, destaca exatamente esta mutualidade de serviço da igreja ao afirmar que “os cristãos devem se reunir com regularidade para se doarem no ministério, e não apenas para receber”.

⁴ ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER. A confissão de fé de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, XXI.VI.

⁵ HORTON, Michael. Um caminho melhor. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 29.

⁶ PETERSON, 2019, posição Kindle 6002.




3 comentários

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João Pedro
João Pedro
29 de out.
Avaliado com 4 de 5 estrelas.

Bom.

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João Batista Gomes de Almeida
João Batista Gomes de Almeida
24 de out.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente post!

Glória a Deus pela Graça de estarmos diante dEle, por Cristo que se entregou por nós, nos tomando para Si, e agora como povo do Senhor podemos adorá-lo e engrandecer o seu nome na assembleia dos santos.

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João Pedro
João Pedro
29 de out.
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Habemus São Cássio!

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