O CULTO NÃO É UMA EXPERIÊNCIA INDIVIDUAL

Autor: Rev. Cássio Campos Neves - pastor titular da 4ª Igreja.

A maneira como compreendemos o culto público revela muito sobre nossa compreensão da própria Igreja. Em uma cultura que valoriza cada vez mais as experiências individuais, é possível que até mesmo a adoração cristã seja interpretada como uma atividade essencialmente pessoal. Nesse caso, reunir-se com outros crentes seria apenas uma oportunidade de buscar experiências espirituais particulares, ouvir uma mensagem edificante ou expressar sentimentos religiosos.
Entretanto, essa compreensão não corresponde inteiramente ao ensino das Escrituras. Embora cada cristão participe pessoalmente da adoração, o culto público não é a soma de experiências religiosas individuais, mas a adoração corporativa da comunidade que Deus reuniu para si em Cristo.
Ao examinar o ensino de Paulo sobre a edificação mútua da igreja em 1 Coríntios 14, David Peterson questiona essa compreensão individualista do culto, afirmando que o apóstolo “observou como é inadequado conceber nossas reuniões principalmente para facilitar a comunhão particular com Deus”.¹ A Igreja não é simplesmente um conjunto de pessoas que compartilham determinadas convicções religiosas. Ela é o povo da aliança, o corpo de Cristo, a comunidade daqueles que foram chamados por Deus para viver em comunhão com ele e uns com os outros. Quando essa comunidade se reúne para cultuar, sua identidade se torna visível de maneira singular. É nesse sentido que Jean-Jacques von Allmen, em O culto cristão: teologia e prática, descreve o culto como a epifania da Igreja: “por meio do culto, a Igreja torna-se ela mesma, toma consciência de si mesma e se confessa entidade específica”.² Isso não significa que o culto constitua a Igreja, mas que nele a comunidade manifesta publicamente a identidade que já recebeu de Cristo.
A partir dessa compreensão, examinaremos três aspectos fundamentais da natureza corporativa do culto público. Primeiro, a Igreja reunida manifesta aquilo que já é em Cristo, tornando visível sua identidade como povo de Deus. Segundo, a Igreja reunida expressa sua unidade como corpo de Cristo, evidenciando que a adoração não é uma experiência meramente individual, mas uma ação da comunidade redimida. Terceiro, a Igreja reunida participa de sua própria edificação, pois, no culto público, Cristo edifica seu corpo também por meio do serviço mútuo de seus membros.
1 A IGREJA REUNIDA MANIFESTA AQUILO QUE JÁ É EM CRISTO
Ao escrever aos coríntios, Paulo se refere aos cristãos quando se reúnem “como igreja” (1Co 11.18). Mais adiante, considera a situação em que “toda a igreja” está reunida no mesmo lugar (1Co 14.23). Essas expressões não descrevem simplesmente a presença simultânea de indivíduos, mas a reunião de uma comunidade que possui identidade própria.
Para compreender essa identidade, é importante considerar o uso bíblico do termo grego ekklesía. Karl Ludwig Schmidt adverte que “a história… do termo ekklesia é mais importante do que sua etimologia”.³ Na Septuaginta, ekklesía frequentemente traduz o hebraico qahal, termo empregado, em determinados contextos, para designar a assembleia do povo de Deus. Essa relação não é etimológica, mas decorre do uso de ekklesía na tradução grega do Antigo Testamento e possui importantes implicações histórico-teológicas.
O encontro de Israel com Deus no Sinai ilustra essa realidade (Dt 4.10). Como observa Jean-Jacques von Allmen, “o qâhâl Yahweh é a assembleia do povo salvo do Egito e confirmado, enquanto povo santo, ao pé do Sinai”.⁴ O povo que Deus havia libertado do Egito foi convocado à sua presença no Sinai. Essa assembleia manifestava uma identidade que não se originava naquele encontro, mas na ação redentora de Deus.
Essa continuidade na história da redenção nos ajuda a compreender a Igreja como comunidade da aliança, reunida diante de Deus. Entretanto, sua existência não é produzida pelo ato de reunir-se, mas pela obra redentora de Jesus Cristo. A Igreja não se torna povo de Deus porque se reúne; ela se reúne porque já é povo de Deus. O culto público manifesta visivelmente essa identidade que a comunidade já possui em Cristo. O culto não é, portanto, apenas algo que a Igreja faz. É um dos acontecimentos fundamentais nos quais ela expressa publicamente aquilo que é.
2 A IGREJA REUNIDA EXPRESSA SUA UNIDADE COMO CORPO DE CRISTO
A natureza comunitária do culto torna-se particularmente evidente no ensino de Paulo sobre a Santa Ceia. Em 1 Coríntios 10.16-17, o apóstolo relaciona a participação no pão e no cálice à comunhão com Cristo e à unidade da Igreja. Ao afirmar que todos participam de um único pão, o apóstolo aponta para a comunhão dos muitos com o mesmo Cristo, da qual procede sua unidade como um só corpo.
A unidade da Igreja, portanto, não pode ser reduzida à afinidade entre seus membros, à convivência social ou à concordância em torno de determinados objetivos. Ela tem sua origem na comunhão com Jesus Cristo. É porque pertencemos a Cristo que pertencemos uns aos outros.
Essa realidade encontra uma expressão particularmente significativa na Santa Ceia. Ao participarem da mesma mesa, os cristãos confessam que sua comunhão não resulta de escolhas individuais, mas da graça daquele que os reuniu em um só corpo.
A Ceia, contudo, não deve ser compreendida apenas como uma representação exterior dessa unidade. Na compreensão reformada, ela é também um meio de graça instituído por Cristo, mediante o qual o Espírito Santo fortalece a fé dos participantes e sua comunhão com o Salvador.⁵
Isso não significa que a unidade da Igreja seja produzida automaticamente pela participação nos elementos sacramentais. Tampouco significa que a Igreja passe a constituir um só corpo somente no momento da celebração. A unidade já foi estabelecida em Cristo. A Santa Ceia a expressa, confirma e fortalece na experiência comunitária dos fiéis.⁶
É precisamente essa relação entre comunhão com Cristo e comunhão entre os irmãos que os coríntios estavam comprometendo. Em 1 Coríntios 11.17-34, Paulo repreende a comunidade porque suas reuniões eram marcadas por divisões, desigualdades e desprezo pelos irmãos. A maneira como celebravam a Ceia contradizia a própria realidade que o sacramento anunciava.
A gravidade do problema aparece quando Paulo afirma que, embora estivessem reunidos, aquilo que faziam não correspondia verdadeiramente à Ceia do Senhor (11.20). Observe-se que a repreensão apostólica não se concentra na ausência de uma cerimônia religiosa, mas na contradição entre o significado da celebração e a conduta da comunidade. Aqueles que participavam do mesmo pão estavam tratando uns aos outros como se não pertencessem ao mesmo corpo.
Assim, a celebração da Ceia não pode ser separada da realidade comunitária que ela expressa. Não é coerente confessar a comunhão com Cristo enquanto se despreza a comunhão com os irmãos.
3 A IGREJA REUNIDA PARTICIPA DE SUA PRÓPRIA EDIFICAÇÃO
A dimensão comunitária do culto não se limita à manifestação da identidade da Igreja ou à expressão de sua unidade. Ela também se revela na finalidade de sua reunião. Em 1 Coríntios 14.26, Paulo estabelece um princípio que deve orientar a participação da comunidade: “Seja tudo feito para edificação”.
O contexto da passagem é significativo. Os coríntios valorizavam determinadas manifestações espirituais, mas nem sempre consideravam seus efeitos sobre os demais participantes da assembleia. Paulo corrige essa compreensão ao subordinar o exercício dos dons ao benefício da comunidade. O critério não é simplesmente a satisfação espiritual de determinado indivíduo, mas a edificação do corpo de Cristo.
Entretanto, essa edificação não é uma realização independente da comunidade. Como esclarece David Peterson, “a edificação é, antes de tudo, responsabilidade de Cristo como ‘cabeça’”.⁷ É o próprio Senhor quem edifica sua Igreja, utilizando os meios que instituiu e capacitando seus membros para servirem uns aos outros.
Essa compreensão não elimina a dimensão pessoal do culto. Cada cristão deve ouvir a Palavra com fé, arrepender-se de seus pecados, orar e louvar sinceramente ao Senhor. Entretanto, sua participação pessoal acontece no interior de uma realidade comunitária.
Quando a Igreja canta, por exemplo, não se trata apenas de várias pessoas expressando simultaneamente seus sentimentos religiosos. Conforme Colossenses 3.16, a comunidade também ensina e admoesta seus membros por meio dos cânticos. Quando a congregação ora, apresenta conjuntamente suas súplicas e ações de graças. Quando ouve a pregação, recebe como corpo a Palavra de Deus.
Por isso, Peterson observa que “adoração e edificação são dimensões diferentes das mesmas atividades”.⁸ A Igreja adora a Deus e, mediante a ação de Cristo, é edificada pelos próprios atos de culto que ele ordenou.
Isso significa que o culto público não pode ser avaliado exclusivamente pela experiência subjetiva de cada participante. Michael Horton adverte contra uma compreensão da adoração que desloca o centro da pessoa e da obra de Cristo para o próprio adorador e sua experiência religiosa.⁹ O culto deve ser compreendido, antes de tudo, a partir daquilo que Deus realiza em favor de seu povo, e não apenas daquilo que cada indivíduo sente durante a reunião.
Por isso, a pergunta não deve ser apenas: O que recebi deste culto? Precisamos perguntar também: Como a Igreja foi edificada pela Palavra de Deus e pela participação de seus membros?
A assembleia cristã não é uma plateia reunida para acompanhar uma apresentação religiosa. É o povo de Deus participando da adoração ordenada por seu Senhor. Essa participação não exige que todos exerçam as mesmas funções, pois o corpo possui diferentes membros e responsabilidades (1Co 12). Entretanto, todos são chamados a participar como membros desse corpo, reconhecendo que sua vida espiritual não pode ser separada da comunhão e da edificação dos irmãos.
CONCLUSÃO
O culto público não é um encontro de indivíduos que ocasionalmente compartilham o mesmo espaço para realizar suas devoções particulares. É a reunião do povo que Deus redimiu e constituiu como corpo de Cristo.
Quando essa comunidade se reúne, manifesta visivelmente sua identidade, expressa a unidade que recebeu do Salvador e participa da edificação que ele concede por meio de sua Palavra e das demais ordenanças.
A Igreja já pertence a Cristo antes de reunir-se e continua pertencendo a ele quando retorna às suas atividades cotidianas. Entretanto, é na assembleia pública que sua identidade comunitária encontra uma expressão especialmente clara.
Essa compreensão deve transformar nossa maneira de participar do culto. Não podemos avaliar a adoração apenas pelo que experimentamos individualmente, mas precisamos reconhecer que fazemos parte de uma comunidade chamada a glorificar a Deus e a crescer conjuntamente na fé.
Não nos reunimos simplesmente para viver experiências pessoais diante de Deus. Reunimo-nos porque, em Cristo, já pertencemos a um só corpo, e é como esse corpo que somos chamados a adorar.
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NOTAS E REFERÊNCIAS:
¹ PETERSON, David. Teologia bíblica da adoração: cultuando a Deus como ele orienta e deseja. São Paulo: Vida Nova, Edição Kindle, 2019, posição 4433.
² ALLMEN, J. J. von. O culto cristão: teologia e prática. São Paulo: ASTE, 2005, p. 41.
³ SCHMIDT, Karl Ludwig. Igreja. In: KITTEL, Gerhard (org.). A Igreja no Novo Testamento. Tradução de Helmuth Alfredo Simon. São Paulo: ASTE, 1965. p. 54.
⁴ ALLMEN, 2005, p. 41.
⁵ ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER. A confissão de fé de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, XXIX.VII.
⁶ CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER, Pergunta 169.
⁷ PETERSON, 2019, posição 6010.
⁸ PETERSON, 2019, posição 6010.
⁹ HORTON, Michael. Um caminho melhor. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 29.


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